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Ariá: tubérculo ‘esquecido’ pode ser alternativa alimentar durante seca na Amazônia

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Ariá é um tubérculo rico em nutrientes e que pode ser plantado em condições climáticas extremas. — Foto: Michael Dantas

A primeira vista, o aspecto lembra uma batata. Tem um sabor que remete ao milho e a crocância de uma cenoura, tudo isso com um elevado valor nutricional. Embora lembre alimentos comuns na mesa do brasileiro, o ariá é um tubérculo que desapareceu das roças, feiras e supermercados. O sumiço, no entanto, pode estar com os dias contados graças a um diferencial: pode ser cultivado em condições climáticas extremas, como a seca da Amazônia.

A região Norte do Brasil já vivencia as consequências da diminuição do nível dos rios este ano. No Amazonas, especialista preveem a pior seca de toda a históriano estado e recomendam que a população de localidades afetadas estoquem água potável e alimentos.

Em meio a este cenário, um grupo de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) resgatou o alimento, que já foi muito popular na Amazônia e consumido por povos indígenas há pelo menos 9 mil anos. Juntos, eles estudam formas de reintroduzi-lo no plantio de comunidades indígenas e ribeirinhas do Amazonas.

Presente nos comércios urbanos da Amazônia até meados de 1970, o ariá foi perdendo espaço para culturas comerciais e alimentos industrializados, o que impactou também sua produção nas comunidades, especialmente em territórios indígenas.

“O ariá sempre foi plantado pelos nossos ancestrais, mas está se perdendo, assim como outros plantios de subsistência. Na minha aldeia, muitas pessoas não só deixaram de plantar o ariá como nem têm nem roçado; compram comida da cidade”, revelou o biólogo Alexandre Tyson Ferreira de Souza, 36, do povo Sateré-Mawé.

 

Mestrando em Ecologia, Alexandre lidera o resgate do ariá na aldeia Nova União, na Terra Indígena Andirá-Marau, localizada no município de Barreirinha, interior do Amazonas. A iniciativa foi inspirada no projeto “Diálogos científicos multiculturais sobre a sociobiodiversidade na Amazônia com potencial bioeconômico”, do Inpa.

O ariá tem uma alta adaptabilidade ao clima quente e é resistente a adversidades climáticas, sendo apontado pelos pesquisadores como uma alternativa de cultivo durante o período da seca na Amazônia, uma vez que seu período de colheita vai de julho a setembro.

Alexandre relembra que, em 2023, a seca arrasou boa parte da safra de hortaliças, macaxeira, banana e guaraná na aldeia Ponta Alegre, do povo Sateré-Mawé. Aproximadamente 760 moradores da comunidade, que fica na Terra Indígena Andirá-Marau, sofreram com a seca e enfrentaram a escassez de alimentos.

Ariá sendo peneirado em comunidade indígena no Amazonas. — Foto: Michael Dantas
Ariá sendo peneirado em comunidade indígena no Amazonas. — Foto: Michael Dantas

 

No Alto Rio Negro, o ariá também é uma das apostas de indígenas dos povos Bará, Tuyuka e Tukano para se tornar uma nova fonte de renda: eles estão desenvolvendo o caxiri (bebida indígena fermentada) de ariá.

“Isso amplia as nossas possibilidades e nos permite agregar valor a um alimento que era só para subsistência. O projeto nos ajudou a enxergar essas oportunidades de negócios sustentáveis”, disse Silvio Sanches Barreto, filósofo, mestre e doutor em Antropologia. Pesquisador e indígena do povo Bará, ele agora busca inserir o produto no mercado.

Em Manaus, o estudante Eli Minev-Benzecry, 17, se inspirou em memórias afetivas da avó para incluir o plantio do tubérculo em um projeto desenvolvido junto ao Instituto Federal do Amazonas (Ifam), em que transformou um campo de futebol em desuso em um Sistema Agroflorestal.

“Essa ideia surgiu de um projeto que iniciamos no nosso sítio. Minha avó falou: ‘planta ariá, que eu gosto muito’. Eu nem sabia o que era, mas plantamos e eu fiquei curioso em saber mais sobre aquela ‘batatinha’, que era tão comum no passado, e hoje é tão difícil de encontrar”, contou Eli, que também assina como um dos autores de um livro com curiosidades, informações científicas e históricas e memórias afetivas em torno deste tubérculo amazônico.

Alto poder nutricional

 

Natural das Américas do Sul e Central, o ariá é um alimento versátil na cozinha e tem um alto potencial nutricional. Assim como peixes, carnes, ovos, cogumelos e a tradicional mistura de arroz e feijão, o ariá está entre os alimentos que fornecem os nove aminoácidos essenciais para uma boa nutrição, fundamental para manter o bom funcionamento do corpo humano.

O tubérculo é classificado como fonte vegetal de proteína de alto valor biológico, daí sua importância histórica para os povos amazônicos: contém de minerais como ferro, potássio, magnésio, zinco, sódio, cálcio, manganês e fósforo, até vitaminas como a tiamina (vitamina B1), riboflavina (vitamina B2), niacina (vitamina B3) e ácido ascórbico (vitamina C).

Na culinária, o ariá é marcante por sua crocância e pela textura e, no cozimento do tubérculo, não há necessidade de acrescentar sal, sendo considerado um “sal vegetal” pelos povos do Alto Rio Negro. Pode ser consumido assado, em mingaus, na fabricação de bebidas, como o caxiri, ou em seu formato mais comum que é cozido.

“A gente já vê uma grande mudança no perfil de saúde dos parentes. Hoje temos pessoas diabéticas, com hipertensão e outras doenças por causa da má alimentação. O resgate do cultivo de culturas como o ariá pode ser o pontapé inicial para a reconstrução de uma estrutura alimentar mais saudável”, finaliza Alexandre.

 

 

 

 

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Amazonas

Manaus vira epicentro do crime organizado na Amazônia, aponta relatório internacional

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Dragas destruídas no 2° dia da operação Boiúna contra o garimpo ilegal no sul do Amazonas — Foto: Divulgação/PF

A capital do Amazonas ocupa posição central nas rotas do narcotráfico e das economias ilícitas que se expandem pela floresta amazônica. É o que aponta o relatório “A Amazônia sob ataque – mapeando o crime na maior floresta tropical do mundo”, publicado pela organização jornalística Amazon Underworld no dia 21 de outubro.

Segundo o documento, Manaus se tornou um dos principais corredores por onde se escoa a cocaína produzida na América do Sul, com as drogas chegando no Amazonas pelo Rio Solimões e seguindo pelo Rio Amazonas rumo à distribuição nacional e internacional. A capital amazonense é considerada um elo logístico estratégico, conectando a produção amazônica a mercados da Europa, África e Ásia por meio de seus portos.

Ao g1, o Governo do Amazonas afirmou que as operações de combate ao crime organizado, tanto em Manaus quanto no interior, continuam fortalecidas, com monitoramento permanente, apoio tecnológico, capacitação de pessoal e ampliação das fronteiras de atuação. Leia a íntegra da nota no fim da reportagem.

O relatório destaca ainda que facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) disputam o controle das rotas fluviais, fronteiras e cadeias logísticas que movimentam toneladas de drogas e milhões de reais.

A ruptura do pacto de não agressão entre os dois grupos, em 2016, intensificou os confrontos e levou à fragmentação da Família do Norte (FDN), facção criada em Manaus.

Com a dissolução da FDN, parte dos seus membros se aliou ao CV, formando o CV-AM, enquanto outra parcela fundou o grupo “Os Crias”, com base em Tabatinga, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Após a morte do líder Brendo dos Santos, em 2023, o CV-AM consolidou seu domínio na região.

O controle do crime na Amazônia brasileira passou por uma transformação significativa nos últimos 15 anos
— diz um trecho do estudo

Além do tráfico de drogas, o relatório aponta que o garimpo ilegal também impulsiona o avanço das facções no Amazonas

A expansão das redes criminosas acelera a destruição ambiental e ameaça o papel da Amazônia como filtro de carbono global. Na conclusão, o estudo mostra que a região vive uma “era de violência exacerbada”, impulsionada pelo ouro e pela cocaína, e alerta para o risco de corrupção das forças estatais.

Com rios navegáveis, portos movimentados e fronteiras vulneráveis, Manaus se consolida como epicentro da criminalidade na Amazônia, refletindo os desafios enfrentados pelo Brasil no combate ao crime organizado transnacional.

Leia a nota do Governo do Amazonas na íntegra

 

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informa que, em todo o Estado do Amazonas, estão sendo implementadas de forma contínua medidas estratégicas para combater o crime organizado, o tráfico de drogas e demais ilícitos.

Neste ano, já foram apreendidas mais de 37 toneladas de entorpecentes em todo o Amazonas, resultado direto das operações integradas que demonstram a eficiência do trabalho conjunto no enfrentamento às organizações criminosas que tentam usar as vias fluviais para o transporte de drogas e outros ilícitos.

Atualmente, o Estado conta com três Bases Arpão, duas bases náuticas de apoio operacional, lanchas blindadas e lanchas de transporte de tropa, equipamentos que garantem maior presença, eficiência e segurança das forças policiais nas regiões estratégicas do Amazonas.

As ações contam com a atuação integrada da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), Polícia Civil (PC-AM), Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), Departamento de Polícia Técnico-Científica (DPTC) e com o apoio da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO-AM), composta por agentes da Polícia Federal, que vêm intensificando o patrulhamento e as fiscalizações nas principais rotas fluviais do Estado.

Desde 2019, o Programa Amazonas Mais Seguro já contou com investimentos superiores a R$ 1,16 bilhão, voltados à modernização das forças de segurança, reforço do efetivo, aquisição de equipamentos, viaturas, embarcações e tecnologia de inteligência. Além disso, mais de 2,8 mil novos servidores foram convocados para compor as forças de segurança, fortalecendo a atuação das instituições e ampliando a presença do Estado em todas as regiões do Amazonas.

Em 2024, o Amazonas atingiu recorde histórico de apreensões de drogas, com 43,2 toneladas de entorpecentes retiradas de circulação em todo o Estado. No mesmo período, as apreensões de armas de fogo também cresceram, chegando a 1.593 unidades, representando um aumento de cerca de 11% em relação a 2023.

A SSP-AM reforça que as operações de combate ao crime organizado, tanto em Manaus quanto no interior, continuam fortalecidas, com monitoramento permanente, apoio tecnológico, capacitação de pessoal e ampliação das fronteiras de atuação, reafirmando o compromisso do Governo do Amazonas com a proteção da vida e a segurança da população.

Fonte: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2025/10/28/manaus-vira-epicentro-do-crime-organizado-na-amazonia-aponta-relatorio-internacional.ghtml

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Operações Lei Seca prendem 47 motoristas por embriaguez ao volante em Manaus

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Operação Lei Seca em Manaus — Foto: Divulgação

 

Duas ações da Operação Lei Seca realizadas pelo Detran-AM, com apoio das polícias Militar e Civil, resultaram na prisão de 47 condutores por embriaguez ao volante em Manaus. As abordagens ocorreram entre a noite de quinta-feira (8) e a madrugada deste sábado (10), na zona norte da cidade.

Na madrugada de sábado (10), 38 motoristas foram presos durante fiscalização na zona norte. Eles foram levados para os 1º, 6º, 14º e 19º Distritos Integrados de Polícia (DIP) após serem flagrados com teor alcoólico igual ou superior a 0,34 mg/L — índice que configura crime de trânsito, conforme o artigo 306 do Código de Trânsito Brasileiro.

Na ação anterior, realizada entre a noite de quinta-feira (8) e madrugada de sexta (9), na alameda Alphaville, bairro Novo Aleixo, outros nove motoristas foram presos por embriaguez ao volante. Os exames apontaram taxas entre 0,46 mg/L e 0,85 mg/L. A operação também resultou em 48 autuações, além da remoção de quatro carros e seis motos.

 

“Nós não queremos atrapalhar a diversão de ninguém, mas se faz necessário tomar as atitudes cabíveis para reduzirmos, cada vez mais, o número de mortes e internações no nosso estado”, disse o diretor-presidente do Detran-AM, David Fernandes.

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MPAM abre procedimento para investigar uso inadequado de atestados médicos por servidores em maternidade de Manaus

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Maternidade Moura Tapajós — Foto: Divulgação

O Ministério Público do Amazonas (MPAM), instaurou procedimento administrativo para acompanhar a investigação do possível uso inadequado de atestados médicos por servidores públicos que atuam na Maternidade Dr. Moura Tapajós (MMT), na Zona Oeste de Manaus. De acordo com a instituição o procedimento foi instaurado após denúncias anônimas.

Conforme o MPAM, obstetras plantonistas estariam orientando pacientes a buscar atendimento em outras unidades de saúde, em virtude da escassez de profissionais devido a frequência de afastamentos médicos de servidores concursados.

No entanto, esses servidores estariam supostamente atuando em cooperativas e hospitais particulares nos mesmos dias dos afastamentos ou em datas próximas. Tal conduta pode indicar uso indevido de atestados médicos, além de possível prática de falsidade ideológica.

De acordo 58ª Promotoria de Justiça Especializada na Defesa dos Direitos Humanos à Saúde Pública (PRODHSP), foi solicitado da Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) a que encaminhe a previsão para a conclusão do procedimento investigatório para possibilitar a instrução e o encerramento do procedimento administrativo.

A medida, assinada pela promotora de Justiça Luissandra Chíxaro de Menezes, tem como base os artigos 196 e 197 da Constituição Federal, que estabelecem a saúde como direito de todos e dever do Estado, sendo de competência do poder público dispor sobre sua regulamentação, fiscalização e controle.

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